Aluga-se um marido

9 de outubro de 2009

Matéria produzida para o jornal Vale Repórter

Por Mayara Barbosa

Ele conserta o encanamento, troca lâmpadas, reboca e pinta paredes e tudo sem reclamar e na hora em que você precisar
 

“Marido de Aluguel”. A expressão por si só já desperta a curiosidade de quem lê; imagine, então, nas páginas de classificados dos jornais. Pelo título e descrição do anúncio muitas mulheres acreditariam ter encontrado o homem dos sonhos. Mas estariam cometendo um grande engano, pois o anúncio com a frase não se trata de nenhuma oferta de caráter duvidoso e sim de um prestador de serviços.

Os chamados “Maridos de Aluguel” desempenham tarefas, como reparos elétricos, serviços de construção civil, pinturas de paredes, consertos domésticos, e, ainda, trocam lâmpadas, instalam chuveiros, matam baratas, trocam botijões de gás, levam cachorros para passear e também atuam como motoristas.

A profissão existe há cerca de 20 anos e surgiu na região metropolitana de São Paulo, onde há empresas especializadas no assunto e até sites personalizados, nos quais os funcionários e serviços oferecidos podem ser escolhidos e contratados pela internet.

Já no Vale do Paraíba, o aumento da ocorrência desses profissionais tem como motivo uma razão bem conhecida: a crise mundial. Com os altos índices de demissões, muitos desempregados, na região, resolveram adotar a atividade como uma alternativa à falta de emprego.

Mas há também aqueles que optaram por ser um marido de aluguel como uma forma de complementar sua renda mensal como é o caso de Magno Aparecido Fernandes, 42 anos.

Magno mora em São José dos Campos e decidiu, há 7 meses, colocar anúncios no jornal e na internet oferecendo seus serviços para ajudar em suas finanças. ”Eu decidi ser um marido de aluguel em função do mercado de trabalho, já que precisava obter mais uma fonte de renda”, explica.
Com relação à ambigüidade de significados que o nome de sua profissão gera, Magno procura uma razão. “Quando você pensa em marido de aluguel, você não leva para o lado profissional, como um chefe de família que deve fazer os serviços que efetuamos, mas pensa no lado emocional e afetivo”.

 Já outros profissionais têm utilizado a expressão para aguçar a criatividade das pessoas e, assim, aumentar sua clientela. Um exemplo é Miraldo Amorim Gomes, 45 anos.

Nascido em Salvador, Bahia, Miraldo saiu de sua terra natal há 28 anos e mora no Vale do Paraíba, na cidade de Jacareí, há 10 anos. Na região, ele começou trabalhando vendendo legumes e depois iniciou sua carreira como empreiteiro. Mas sofrendo os reflexos da crise, decidiu, há um mês, adotar a expressão. “A ideia surgiu quando vi uma reportagem de um rapaz que mora no interior, em Campinas, e que, ao perder o emprego, passou a adotar o nome não ficando sem cliente nem um dia sequer. Foi aí que decidi colocar o anúncio no jornal”, explica.

Quando optou por desempenhar essa nova atividade, Miraldo recebeu o apoio de seus dois filhos e, mais ainda, de sua esposa. Casado há 13 anos, ele conta com a companhia e ajuda de sua mulher no trabalho. “Desde que estamos juntos, eu o acompanho nas atividades que ele faz”, ressalta Ana Cristina Cardoso Gomes, de 35 anos.

Ana aprendeu os ofícios do marido ao observá-lo, mas também conta com a atenção e disposição de Miraldo para ensiná-la. Nos trabalhos é ela quem realiza toda a parte de medições e acabamentos.

Atendendo todas as cidades do Vale do Paraíba e até mesmo de fora, esse soteropolitano recebe pedidos não só de mulheres solteiras ou viúvas, mas também de recém-casados, de idosos e de homens, que por não terem tempo para realizar essas atividades em suas casas acabam por solicitar os serviços de um marido de aluguel. 

O publicitário Wagner Fabiano de Godoy, de 32 anos, é um exemplo de alguém que se interessou pelos serviços de Miraldo quando viu o anúncio do jornal. “Eu já conhecia essa profissão de outros lugares e já havia visto em reportagens, mas achei super inusitado que alguém tenha trazido a profissão para a região”, afirma. Wagner, que contratou esse serviço pela primeira vez, conta que tem enfrentado brincadeiras. “Existe brincadeiras sim, principalmente da minha noiva e da minha sogra”.

E com tantos afazeres o dia de Miraldo começa cedo. Às sete horas da manhã, ele já inicia suas atividades e muitas vezes não tem hora para terminar. Sua jornada de trabalho diária chega a durar até 10 horas. E não há tempo para descanso. Ele trabalha aos sábados, domingos, feriados e em situações de emergência. “O meu telefone fica ligado 24 horas por dia”, revela o ex-vendedor de legumes.

Para melhor atender os clientes, ele mantém uma equipe de acordo com a quantidade de trabalho, pois muitas vezes há casas que necessitam de muitos reparos, e com o prazo estipulado. Os preços são relativos e variam de acordo com a quantidade e tipo do serviço.

Miraldo é um marido de aluguel em São José dos Campos

Miraldo é um marido de aluguel em São José dos Campos Foto: Mayara Barbosa

Resultados
O número de pedidos tem surpreendido esse trabalhador e a mulher que não acreditavam que teriam tantos resultados positivos ao iniciarem essa atividade. “Essa profissão foi um escape que nós encontramos em um momento de crise. No começo, achávamos que teríamos um retorno pequeno com os serviços de eletricidade, trocas de lâmpadas, consertos e desentupimentos de pias, mas na verdade o retorno foi bem maior”, ressalta Ana.

Além disso, as expectativas do casal foram superadas por o mercado estar em um momento de recessão, o que aumenta o desemprego, fazendo com que outras pessoas também busquem a mesma alternativa. “Com a crise, cresceu a concorrência entre os maridos de aluguel, pois um vê o outro e acaba adotando a mesma ideia”, constata Gomes, que pretende continuar usando a expressão mesmo após a crise. “Acredito que a expressão atraia tanto as pessoas porque é uma coisa diferente”.

Equívocos
Como já era de se esperar, o título “Marido de Aluguel” não serve somente para atrair clientes, mas também para criar enganos e brincadeiras.
Miraldo já passou por isso. Certo dia recebeu uma ligação que em nada tinha a ver com seus serviços. “Teve uma jovem que me ligou falando se eu poderia acompanhá-la em um final de semana em Caraguatatuba para fazer ciúmes para um ex-namorado. Então, expliquei que meu serviço é só profissional”, conta aos risos.

Ana, sua mulher, afirma que não fica enciumada com a clientela feminina do marido. “Eu não fico com ciúmes porque já sabíamos que iria surgir esse tipo de interpretação, mas a gente conversa e leva tudo dentro de brincadeira”, explica.

No entanto, ela também tem de enfrentar momentos conflitantes devidos ás brincadeiras de familiares e amigos. “Surgem as brincadeiras porque as pessoas interpretam que é o marido que está sendo alugado, mas na verdade é uma prestação de serviço”, afirma.

Com relação aos ciúmes dos verdadeiros maridos, Miraldo afirma que, até o momento, não teve de enfrentar esse tipo de problema. Já Ana enfatiza que a sua companhia é que faz a diferença. “Os maridos até ficam mais tranquilos quando veem que o Miraldo trabalha acompanhado da esposa”.

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